
Os magos não acreditam na morte. A luz da
consciência, tudo está vivo.
Não existem inícios ou fins. Para o mago, eles não
passam de elaborações mentais.
Para viver mais plenamente, é preciso morrer para o
passado.
As moléculas se dissolvem e se extinguem, mas a consciência
sobrevive à morte da matéria na qual ela viaja.
consciência, tudo está vivo.
Não existem inícios ou fins. Para o mago, eles não
passam de elaborações mentais.
Para viver mais plenamente, é preciso morrer para o
passado.
As moléculas se dissolvem e se extinguem, mas a consciência
sobrevive à morte da matéria na qual ela viaja.
Todas as histórias a respeito de Merlim, mesmo as mais confusas, tinham como certo que ele vivia às avessas no tempo. Na sua época, isso causava uma grande consternação entre os mortais. O velho mago gritava "Cuidado!" um segundo depois de Artur ter derramado água quente em si mesmo. Ele aparecia inesperadamente nos enterros e dava pancadinhas debaixo do queixo do cadáver como se este fosse um bebê recém-nascido. Se isso já não fosse estranho o bastante, os aldeões sussurravam que Merlim fora visto nos cemitérios oferecendo presentes de batizado às lousas das sepulturas.
—Você pode me explicar por que você vive às avessas no tempo? — perguntou certa vez o menino Artur.
—Porque todos os magos vivem assim —respondeu Merlim.
—E por quê?
—Porque essa é a nossa escolha. Ela tem muitas vantagens.
—Não consigo ver nenhuma — insistiu Artur, pensando nos estranhos hábitos de Merlim, como o de tomar o café da manhã antes de ir para a cama.
—Venha, vou lhe mostrar — disse Merlim, saindo com Artur da gruta de cristal. Era um dia quente de verão, o sol estava a pino e as rosas silvestres curvavam-se, quase tocando o chão.
—Agora — disse Merlim, entregando uma pá ao menino. — Comece a cavar uma vala daqui até ali, e não pare enquanto eu não mandar.
Artur pôs mãos à obra, cavando com toda a força. Uma hora depois, estava exausto, mas Merlim ainda não havia dito para ele parar.
—Já é suficiente? — perguntou o menino. Merlim olhou para a vala, que devia ter mais ou menos dois metros de extensão por sessenta centímetros de profundidade.
—Sim, já está bom — respondeu Merlim. — Agora encha o buraco de novo.
Apesar de acostumado a obedecer, Artur não gostou muito dessa ordem. Suando e de cara amarrada, ele labutou debaixo do sol causticante até encher inteiramente a vala.
—Sente-se agora do meu lado — disse Merlim. — O que você achou desse trabalho?
—Completamente despropositado — deixou escapar Artur.
—Exatamente, e o mesmo acontece com quase todo esforço humano. Mas a falta de propósito só é descoberta tarde demais, depois que o trabalho já foi feito. Se você vivesse às avessas no tempo, você teria percebido que cavar aquela vala era despropositado e não teria nem começado o trabalho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário