
Quem sou eu? É a única pergunta que vale a pena ser feita e a
única que jamais é respondida.
É seu destino desempenhar uma infinidade de papéis, mas esses
papéis não são você.
O espírito não é localizado, mas deixa atrás de si uma impressão
digital que chamamos de corpo.
Um mago não acredita ser um evento localizado
que sonha com um mundo maior.
Um mago é um mundo que sonha com eventos localizados.
O que nos limita em primeiro e último lugar na vida mortal são os nomes, os rótulos e as definições. Ter um nome é útil — ele permite que você saiba que certidão de nascimento é a sua — mas ele rapidamente se transforma numa limitação. Seu nome é um rótulo. Ele o define como
tendo nascido num determinado lugar e hora, filho de pais específicos. Passados alguns anos, seu nome o define como alguém que frequenta tal escola, e depois que tem tal profissão. Aos trinta anos, sua identidade está enclausurada numa caixa de palavras. As paredes da caixa podem consistir no seguinte: "Católico, advogado fiscal, formado por Cornell, casado, três filhos e uma hipoteca." Esses fatos podem não estar errados, mas são enganadores. Eles encerram em condições um espírito incondicionado.
Muitas dessas limitações parecem pertencer a você quando na verdade pertencem ao seu corpo, e você é bem mais do que seu corpo. O mago tem um relacionamento peculiar com seu corpo. Ele o vê como um fragmento de consciência que toma forma no mundo, mais ou menos como as pedras, as árvores, as montanhas, as palavras, os desejos e os sonhos fluem e tomam forma. O fato de o desejo ou o sonho ser insubstancial, enquanto nosso corpo é sólido, não perturba o mago.
Os magos são desprovidos do nosso preconceito comum que iguala o"sólido" ao "real".
O mago não julga ser um evento local sonhando com um mundo mais amplo. O mago é um mundo sonhando com eventos locais. Ele não é restringido por limites. Os mortais não poderiam existir sem limites. O corpo deles define quem eles são, sem o corpo, a pessoa nem mesmo poderia saber onde é seu lar, visto que o lar é onde o corpo encontra abrigo e repouso. No entanto, Merlim não se considerava um sem-lar. Ele disse:
— Este corpo é como uma pousada que serve de lar aos meus pensamentos, mas eles entram e saem tão rápido que poderíamos dizer que eles vivem no ar. Mais uma vez, supomos que os pensamentos entram e saem da nossa cabeça, mas não podemos prová-lo. Quem já viu um
pensamento antes de ele surgir? Quem segue o pensamento aonde ele vai depois? Merlim não conseguia entender por que os mortais queriam se agarrar ao corpo.
— Aceito dizer que este pacote de carne e osso seja "eu" —disse ele —, mas somente se aquela montanha, aquele pasto e aquele castelo também forem "eu". Um corpo mortal não era melhor, aos olhos de Merlim, do que um cabide no qual crenças, receios, preconceitos e sonhos foram
deixados pendurados. Se você pendurar casacos demais num cabide, você não mais poderá vê-lo. Foi isso que os mortais fizeram com o corpo, disse Merlim. É impossível enxergar a verdade do corpo humano — que ele é um rio de consciência que circula através do tempo — porque muito peso do passado acumulou-se nele.
(Deepak Chopra)